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Entre a indiferença social e as decisões irreversíveis na França das liberdades

As consultas nacionais sobre bioética avançam silenciosamente em França, quase sem debate público, quase sem inquietação coletiva, quase sem aquela atenção que deveria acompanhar decisões que moldam o futuro da própria humanidade.

É neste vazio que a Conferência Episcopal da França decidiu intervir, oferecendo uma contribuição que não é apenas técnica ou doutrinária, mas profundamente antropológica.

Num país que se habituou a discutir reformas orçamentárias, previdenciárias ou securitárias com paixão, a bioética permanece relegada a um canto discreto — e paradoxalmente, é aqui que se jogam as escolhas mais irreversíveis da nossa época.

Questões que definem o amanhã

A indiferença contrasta com a gravidade das perguntas colocadas:

  • Devem os testes de DNA ser autorizados antes mesmo da concepção, para prevenir anomalias genéticas?
  • Que limites impor à hibridização entre humano e máquina?
  • Até onde pode ir a engenharia genética sem comprometer a dignidade humana?

Estas questões não se decidem com slogans políticos, nem com cálculos eleitorais. São perguntas que exigem visão, prudência e uma compreensão profunda da pessoa humana.

E é precisamente aqui que a Igreja francesa se posiciona: não como força de oposição, mas como guardiã da humanidade vulnerável.

A contribuição da Igreja: preservar, não travar

Ao contrário do que dizem os cínicos, a Igreja não “volta ao ataque”. Ela mantém uma coerência que atravessa décadas: a defesa da vida, da dignidade e da vulnerabilidade humana.

O documento episcopal não é um manifesto conservador. É um apelo à preservação:

  • preservar a pessoa em todas as suas dimensões,
  • preservar a humanidade de ser reduzida a mercadoria,
  • preservar o corpo de ser tratado como objeto de desempenho,
  • preservar o indivíduo de ser absorvido por uma lógica de direitos infinitos sem responsabilidade,
  • preservar o mais frágil num mundo que idolatra eficiência.

Num tempo em que a tecnologia avança mais rápido do que a reflexão ética, a Igreja propõe um caminho singular: o apoio sistemático aos mais vulneráveis.

Uma sociedade que recua perante a morte?

A França acaba de atravessar a batalha sobre os cuidados paliativos e a morte assistida. A legalização da eutanásia — apresentada como “auxílio para morrer” — revelou uma sociedade que prefere afastar a morte em vez de compreendê-la.

A pergunta que paira é simples e brutal: A França está a recuar perante a morte ou a preparar-se para enfrentar os desafios éticos que a tecnologia lhe impõe?

A bioética não é um debate técnico. É um espelho. E o que ele reflete hoje é uma sociedade que hesita entre o conforto da indiferença e a coragem de pensar o futuro.

Uma certa ideia de humanidade

A Igreja não pretende impor, mas honrar a nossa humanidade. E essa ideia — tão simples, tão antiga, tão universal — é talvez o que mais falta ao debate bioético francês.

A França precisa reencontrar essa ideia de humanidade que não se mede em algoritmos, não se calcula em sondagens, não se negocia em laboratórios. Uma humanidade que reconhece que o progresso só é verdadeiro quando não deixa ninguém para trás.

Vamos ver como reage perante a chegada do Papa no final de Setembro.

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