No coração dos jardins de Castel Gandolfo, Leão XIV inaugurou o Tempo da Criação com uma missa marcada pela contemplação e pela urgência ecológica. “Silenciemos o ruído humano para ouvir a voz melodiosa da Criação”, pediu o Papa, convocando os cristãos a redirecionar para a vida tudo aquilo que hoje serve à destruição.

O entardecer de 1º de setembro trouxe a Castel Gandolfo uma atmosfera de recolhimento raro. Entre ciprestes, fontes antigas e o verde profundo dos jardins papais, Leão XIV abriu oficialmente as cinco semanas do Tempo da Criação, período anual de oração e mobilização ecológica celebrado por diversas denominações cristãs. A missa, realizada no Borgo Laudato si’, marcou o início de uma caminhada espiritual que o Papa descreveu como “urgente, mas ainda possível”.
A celebração ocorreu no jardim Madonnina, espaço dedicado à formação em ecologia integral e idealizado por Francisco. Foi ali que Leão XIV já havia celebrado, em 2025, a primeira missa pro custodia creationis, nova fórmula litúrgica dedicada à salvaguarda da Criação. Desta vez, porém, a celebração foi pública — e carregada de simbolismo.
“Escutemos a voz melodiosa da Criação”
Na homilia, breve mas profundamente contemplativa, Leão XIV convidou os fiéis a uma pausa interior. Comentando as leituras do dia — o Livro da Sabedoria, o Salmo 18 e o Evangelho de Mateus sobre “as aves do céu e os lírios do campo” — o Papa pediu que todos silenciassem o ruído humano para escutar a Criação como linguagem divina.
“Na voz melodiosa da Criação, Deus nos fala.”
Dessa escuta, explicou, nasce a consciência do lugar de cada pessoa no plano de Deus e da responsabilidade coletiva de preservar a harmonia original. E dessa consciência brota um compromisso renovado com a restauração das relações entre todas as criaturas.
Água Viva e justiça ecológica
O Papa retomou sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, publicada em 15 de agosto, centrada no apelo de Isaías para “transformar espadas em arados”. Denunciou o ciclo vicioso entre guerra e destruição ambiental, lembrando que aquilo que serve à morte pode — e deve — ser redirecionado para a vida.
Este ano, o Tempo da Criação tem como tema “Água Viva”, e Leão XIV insistiu na necessidade de uma gestão hídrica justa e sustentável, para que todos tenham acesso equitativo à água. Convidou à oração e à ação concreta, afirmando com força:
“Ainda não é tarde demais.”
Oito séculos de São Francisco de Assis
O Papa recordou que o Tempo da Criação terminará em 4 de outubro, dia que marcará os 800 anos da morte de São Francisco de Assis. O Pobrezinho, lembrou, inspirou Francisco a escrever Laudato si’ e a criar o Borgo Laudato si’, hoje um dos centros simbólicos da conversão ecológica da Igreja.
A homilia concluiu com uma citação do Cântico das Criaturas, ecoando o espírito franciscano que atravessa todo o pontificado de Leão XIV: simplicidade, cuidado, reconciliação com a natureza.
Um Papa que insiste na ação
Leão XIV tem reiterado a urgência ecológica. Em novembro de 2025, numa mensagem enviada à COP30 em Belém, lamentou a falta de vontade política diante das mudanças climáticas e pediu ações concretas. Em Castel Gandolfo, voltou a insistir: a Criação não é apenas cenário, mas dom — e responsabilidade.



