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Tempo da Criação: oportunidade para transformar destruição em vida

No coração dos jardins de Castel Gandolfo, Leão XIV inaugurou o Tempo da Criação com uma missa marcada pela contemplação e pela urgência ecológica. “Silenciemos o ruído humano para ouvir a voz melodiosa da Criação”, pediu o Papa, convocando os cristãos a redirecionar para a vida tudo aquilo que hoje serve à destruição.

Papa Leão XIV na Missa pelo Cuidado da Criação em Castel Gandolfo, Itália, em 1º de setembro de 2026
Papa Leão XIV na Missa pelo Cuidado da Criação em Castel Gandolfo, Itália, em 1º de setembro de 2026

O entardecer de 1º de setembro trouxe a Castel Gandolfo uma atmosfera de recolhimento raro. Entre ciprestes, fontes antigas e o verde profundo dos jardins papais, Leão XIV abriu oficialmente as cinco semanas do Tempo da Criação, período anual de oração e mobilização ecológica celebrado por diversas denominações cristãs. A missa, realizada no Borgo Laudato si’, marcou o início de uma caminhada espiritual que o Papa descreveu como “urgente, mas ainda possível”.

A celebração ocorreu no jardim Madonnina, espaço dedicado à formação em ecologia integral e idealizado por Francisco. Foi ali que Leão XIV já havia celebrado, em 2025, a primeira missa pro custodia creationis, nova fórmula litúrgica dedicada à salvaguarda da Criação. Desta vez, porém, a celebração foi pública — e carregada de simbolismo.

“Escutemos a voz melodiosa da Criação”

Na homilia, breve mas profundamente contemplativa, Leão XIV convidou os fiéis a uma pausa interior. Comentando as leituras do dia — o Livro da Sabedoria, o Salmo 18 e o Evangelho de Mateus sobre “as aves do céu e os lírios do campo” — o Papa pediu que todos silenciassem o ruído humano para escutar a Criação como linguagem divina.

“Na voz melodiosa da Criação, Deus nos fala.”

Dessa escuta, explicou, nasce a consciência do lugar de cada pessoa no plano de Deus e da responsabilidade coletiva de preservar a harmonia original. E dessa consciência brota um compromisso renovado com a restauração das relações entre todas as criaturas.

Água Viva e justiça ecológica

O Papa retomou sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, publicada em 15 de agosto, centrada no apelo de Isaías para “transformar espadas em arados”. Denunciou o ciclo vicioso entre guerra e destruição ambiental, lembrando que aquilo que serve à morte pode — e deve — ser redirecionado para a vida.

Este ano, o Tempo da Criação tem como tema “Água Viva”, e Leão XIV insistiu na necessidade de uma gestão hídrica justa e sustentável, para que todos tenham acesso equitativo à água. Convidou à oração e à ação concreta, afirmando com força:

“Ainda não é tarde demais.”

Oito séculos de São Francisco de Assis

O Papa recordou que o Tempo da Criação terminará em 4 de outubro, dia que marcará os 800 anos da morte de São Francisco de Assis. O Pobrezinho, lembrou, inspirou Francisco a escrever Laudato si’ e a criar o Borgo Laudato si’, hoje um dos centros simbólicos da conversão ecológica da Igreja.

A homilia concluiu com uma citação do Cântico das Criaturas, ecoando o espírito franciscano que atravessa todo o pontificado de Leão XIV: simplicidade, cuidado, reconciliação com a natureza.

Um Papa que insiste na ação

Leão XIV tem reiterado a urgência ecológica. Em novembro de 2025, numa mensagem enviada à COP30 em Belém, lamentou a falta de vontade política diante das mudanças climáticas e pediu ações concretas. Em Castel Gandolfo, voltou a insistir: a Criação não é apenas cenário, mas dom — e responsabilidade.

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