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A França que Leão XIV vai encontrar: entre a ferida e o renascimento, uma Igreja que aprende a gerar soluções

Monsenhor Celestino Migliore, Núncio Apostólico na França, oferece uma leitura surpreendentemente esperançosa da Igreja francesa no momento em que o país se prepara para acolher Leão XIV. A sua análise pode ser sintetizada em quatro grandes ideias-chave — especialmente relevantes para compreender a relação entre a Igreja e a sociedade laica francesa.

A visita de Leão XIV à França, marcada para 25 de setembro, acontece num momento singular da vida eclesial francesa. Monsenhor Celestino Migliore, Núncio Apostólico em Paris, descreve uma Igreja que já não se parece com a que o mundo conheceu durante séculos: perdeu força institucional, perdeu território, perdeu clero. Mas, paradoxalmente, está a reencontrar uma energia espiritual que não nasce das estruturas, mas das pessoas.

O maior desafio da visita, admite o Núncio, é o tempo. A confirmação tardia da viagem deixou pouco espaço para preparar encontros, deslocações e medidas de segurança. Mas o essencial permanece: garantir que cada etapa seja pastoral, que o Papa esteja próximo das multidões que desejam vê-lo, e que a sua presença seja um gesto de encorajamento para uma Igreja que procura novo fôlego.

A visão de Leão XIV sobre a França é marcada por um dado que surpreendeu a própria Cúria Romana: o aumento expressivo dos batismos de adultos, sobretudo jovens. Durante o Jubileu da Juventude, o Papa quis ouvir diretamente estes novos cristãos — como descobriram Jesus, porque pediram o batismo, como pretendem viver o Evangelho numa sociedade secularizada. A visita nasce desse encontro: transformar sinais dispersos de vitalidade num renascimento duradouro.

Mas o contexto é complexo. A transmissão tradicional da fé — pais, catecismo, paróquia — já não alcança a maioria. O número de sacerdotes diminui, e a rede territorial que sustentava a vida sacramental está fragmentada. A crise dos abusos deixou marcas profundas, abalou comunidades, expôs fragilidades e exigiu um trabalho de verdade que ainda está em curso.

Apesar disso, Migliore recusa a narrativa do declínio absoluto. Fala de uma Igreja “multicolorida”, onde o cinzento existe, mas não domina. Uma Igreja que está a passar de um modelo de controlo — medir a saúde pela estatística — para um modelo de geração: despertar a fé, anunciar a Palavra, criar espaços onde Cristo possa ser reencontrado. É aqui que o Núncio vê criatividade, imaginação pastoral, novas formas de evangelização e um fervor inesperado entre jovens adultos.

E quanto à relação entre Igreja e Estado? Migliore desmonta o cliché. A França é laica, mas não hostil. Há separação, mas não confronto. O Conselho de Estado tem protegido a liberdade religiosa e, apesar da lei de 2021 ter introduzido maior vigilância, a Igreja continua a dialogar, a colaborar e a fazer ouvir a sua voz — mesmo quando não é seguida.

A chegada de Leão XIV acontece, portanto, num país onde a fé já não é evidente, mas onde a procura espiritual cresce; onde a Igreja perdeu influência, mas ganhou autenticidade; onde a secularização é forte, mas onde o Evangelho continua a despertar vidas.

O Papa encontrará uma França ferida, mas viva. Uma Igreja diminuída, mas criativa. Uma sociedade laica, mas aberta ao testemunho. E encontrará, sobretudo, cristãos que não querem conservar o passado, mas gerar futuro.

A visita de 25 de setembro não será apenas um evento. Será um sinal: o de que a Igreja na França, apesar de tudo, ainda sabe renascer.

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