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Francisco, oito séculos depois: o santo que ainda nos desinstala

Oito séculos após a noite silenciosa da Porciúncula, Francisco de Assis continua a ser uma pergunta viva dirigida ao nosso tempo. Entre a tentação de o reduzir a ícone decorativo e a força radical do Evangelho que abraçou, o Pobrezinho desafia-nos a rever o modo como acumulamos, como falamos, como cuidamos e como acolhemos. No Ano de São Francisco, a Igreja é chamada a transformar celebrações em gestos concretos: menos apego, mais fraternidade; menos indiferença, mais cuidado. Porque a resposta que Francisco deu ao Evangelho ainda espera a nossa.

EDITORIAL

Francisco: oito séculos a interpelar o mundo

Há aniversários que nos convidam a olhar para trás. Os 800 anos da morte de São Francisco de Assis desafiam-nos, sobretudo, a olhar para o presente. Na noite de 3 de outubro de 1226, na Porciúncula, terminava a vida do Pobrezinho de Assis. Oito séculos depois, permanece uma pergunta incómoda: que fazemos nós do Evangelho que ele levou tão a sério?

Francisco tornou-se uma figura admirada muito para além das fronteiras da Igreja. Mas essa admiração corre o risco de o transformar num santo decorativo: amigo dos animais, poeta da natureza, imagem simpática de uma paz sem exigências. A sua vida foi mais radical. No centro estava Jesus Cristo. Da relação com Ele nasceram a pobreza escolhida, a fraternidade, o cuidado pelas criaturas e a disponibilidade para ir ao encontro do outro.

É precisamente essa coerência que continua a interpelar-nos. Numa sociedade que mede o sucesso pela acumulação, Francisco convida à liberdade perante as coisas. Num espaço público onde a diferença facilmente se transforma em hostilidade, propõe o reconhecimento do irmão. Perante uma criação tratada como recurso inesgotável, ensina a gratidão e a responsabilidade.

A pobreza franciscana também nos obriga a distinguir a sobriedade livremente escolhida da miséria imposta. A privação que rouba dignidade às pessoas exige uma resposta. Celebrar Francisco implica perguntar como usamos os bens, que lugar damos aos pobres e quanto estamos disponíveis para partilhar. Uma homenagem sem consequências pode ser bonita, mas deixa tudo na mesma.

Também a paz precisa de sair dos discursos. Começa na forma como falamos, como discordamos, como acolhemos e como resistimos à tentação de humilhar. Quem invoca a fraternidade e alimenta o desprezo pelo outro contradiz aquilo que proclama. Francisco recorda-nos que a reconciliação exige coragem, humildade e gestos concretos.

Na carta que assinala este centenário, Leão XIV sublinha a ligação entre a paz com Deus, a paz entre as pessoas e a paz com a criação. Esta perspetiva desafia uma fé fechada no conforto individual. A oração deve transformar as relações; o cuidado ambiental deve incluir os mais vulneráveis; a defesa da dignidade humana deve orientar as nossas escolhas.

O Ano de São Francisco, proclamado pelo Papa até 10 de janeiro de 2027, oferece à Igreja uma oportunidade de renovação. As celebrações e peregrinações terão maior fecundidade se ajudarem as comunidades a escutar melhor, a partilhar mais e a aproximar-se de quem vive sozinho, sofre ou perdeu a esperança.

Oito séculos depois, Francisco continua a fazer-nos uma proposta profundamente atual: viver com menos apego e mais disponibilidade, menos ressentimento e mais misericórdia, menos indiferença e mais cuidado.

O melhor tributo será dar a essa proposta um lugar na nossa vida. Porque o Evangelho que transformou Francisco continua à espera da nossa resposta.

Por Sérgio Carvalho – Director Religiolook

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