
ARTE & SAGRADO
Em Vendas Novas, um dos conjuntos mais singulares da arquitetura religiosa e tecnológica do século XX acaba de dar um passo decisivo para ser reconhecido como património nacional. A Capela de São Gabriel — obra ímpar de 1951, desenhada por Jorge Segurado e iluminada pelos vitrais de Almada Negreiros — e o núcleo residencial da antiga estação da Companhia Portuguesa Rádio Marconi entraram oficialmente em procedimento de classificação, ficando desde já protegidos pela lei.
O património religioso e cultural da Arquidiocese de Évora ganhou novo destaque com o anúncio publicado em Diário da República a 29 de setembro: o conjunto formado pela Capela de São Gabriel e pelo núcleo habitacional da antiga estação da Marconi, em Vendas Novas, está em vias de classificação como património nacional.
A decisão, tomada pelo Património Cultural, I.P., resulta de uma proposta do Departamento dos Bens Culturais e reconhece o valor arquitetónico, histórico e artístico de um lugar que marcou a modernidade portuguesa. Desde o despacho de 22 de setembro, o conjunto encontra‑se abrangido pelas medidas legais de proteção, incluindo a zona geral de salvaguarda que se estende por 50 metros a partir dos limites externos dos edifícios.
Um património já reconhecido localmente
A importância da antiga estação da Marconi e da Capela de São Gabriel não é nova. Na revisão do Plano Diretor Municipal de Vendas Novas, publicada em 2025, o município já identificava o conjunto como património de interesse concelhio, destacando a autoria de Jorge Segurado e os vitrais de Almada Negreiros.
O PDM dedica mesmo uma unidade operativa de planeamento ao local, classificando-o como um “programa singular e modelar” das antigas instalações da rádio Marconi. O objetivo municipal é claro: reabilitar, reutilizar e devolver dignidade a um território hoje desqualificado, mas com enorme valor patrimonial.
Entre fé, modernidade e memória técnica
A Capela de São Gabriel, construída em 1951, é apontada como uma obra única no panorama religioso português do pós‑guerra. O seu desenho depurado, o diálogo com o núcleo habitacional e a presença dos vitrais de Almada Negreiros fazem deste conjunto um raro encontro entre espiritualidade, arquitetura moderna e história das telecomunicações.
O plano municipal prevê que toda a área seja recuperada, preservando o parque habitacional, o desenho urbano original, o caráter erudito do conjunto e a envolvente rural. A futura intervenção poderá ser concretizada através de plano de pormenor ou unidade de execução, abrindo caminho a novas utilizações que respeitem a memória do lugar.
Um passo decisivo para o futuro
Com o procedimento de classificação agora iniciado, Vendas Novas aproxima‑se de ver reconhecido nacionalmente um dos seus mais notáveis conjuntos patrimoniais — um espaço onde a fé, a arte e a tecnologia se cruzam e onde a Arquidiocese de Évora encontra mais um testemunho vivo da sua história.




